Planeta: que somos? Por:
Pe. Valdenir Tadeu da Cunha,scj.
Somos planeta:
terra, água, ar, animais que pensam. Somos humanos, húmus.
Quando morremos, voltamos ao que somos: água, terra, seiva,
flor, folha e fruto. Não somos anjos e nunca seremos. Temos
corpo e nosso corpo é terra, é água, é ar... é carne. A certeza
é que somos escolhidos e amados por Deus. Ele gosta tanto do que
faz que resolveu ser criatura, pessoa humana.
A pessoa humana é esse
animal que pensa difere dos outros exatamente pela consciência
que tem, por sua capacidade de pensar e conhecer. Só nós temos a
consciência da vida e da morte, da nossa pertença ao mundo e de
nossa pertença à natureza. Por isso, a nossa responsabilidade
pela vida no planeta é indelegável. Transcendemos os animais não
só por nossa capacidade de pensar, mas porque o Criador soprou
sobre nós o seu Espírito. O ser humano está preparado para
hospedar Deus em si.
Hoje, mais do que nunca, ecoa por
toda a parte o grito da terra, ameaçada de tantos modos pelo
domínio ambicioso e avassalador dos adversários ao Projeto do
Deus Criador. Pode ser a minoria da humanidade, mas as pessoas
estão se apoderando das riquezas naturais, roubam para si a obra
da Criação, e assim, há a traição do plano de Deus, colocando o
precioso dom da vida de nosso ecossistema sob ameaça de morte.
Trago recordações da minha
infância na roça, guardo a lembrança de um rio chamado Rio
Glória em Miradouro-MG, que escondia uma beleza na terra ao
meio das rochas por quilômetros que aparecia também nas
exuberantes cachoeiras. Lugar de todos curtirem o seu verão e
com imagem bonita, que até hoje me energiza cada vez que retomo.
O barulho das águas e o canto dos pássaros, as flores e os
frutos. Experimento a mesma emoção, atualmente misto de temor e
gozo.
Hoje, lá na minha terra, esta
imagem mudou: o rio diminuiu um bom tanto de água, que quase
seca no tempo da estiagem, cada ano mais longa e ameaçadora. O
ambiente mudou. Percebo, indignado, que esta minha experiência
faz parte de uma realidade mais ampla em que a dominação é
levada a tal extremo que provoca um desequilíbrio nos micros
sistemas.
A vida é dom Sagrado e sem preço
de compra e venda, é envolvida na corrupção. No campo e na
cidade, há envenenamentos da terra e das águas, há fome e
miséria, doenças e sofrimentos causados pela extrema cobiça de
pessoas e grupos. A saber, há pouco tempo o mensalão, cestas
básicas que não chegam ao seu destino, empregos que não saem de
seus projetos, a educação só fica nas pesquisas e a saúde
continua uma vergonha.
A Palavra de Deus nos inspira no
Salmo 8 essa luta tão atual. É um hino de Louvor ao Criador do
universo e, ao mesmo tempo, uma chamada de atenção à
responsabilidade do ser humano de cuidar da criação, como algo
fundamental de sua própria vocação.
Enfim, este Salmo confunde os que
usam o conhecimento com o único objetivo de explorar, arrancar
riquezas e consumir, desconhecendo a presença encantadora, que
está aí, ao alcance de nossos sentidos, para ser gratuitamente
contemplado, curtido em sua beleza e grandiosidade amorosa:
Deus.[1]
Mas coloca o ser humano no plano de criatura e dentro do mundo
das criaturas o homem é superior visto ter sido criado à imagem
do criador e participante do governo das criaturas. A tensão
situa no mistério do homem, no mistério do Ser do homem diante
do ato criador de Deus. Por mais que o homem se sinta
participante do mundo das criaturas, ao mesmo tempo se sente
diferente delas.[2]
Deus tem seus caminhos e o que cabe a nós aqui e agora é o dever
sagrado de zelar pela nossa casa comum de todos nós, nosso
Planeta Terra: a vida, tão ameaçada que “geme em dores de parto”
(Rm 8,22).
[1]
Cf. KAEFER, José Ademar; JARSCHEL, Haidi. Dimensões
sociais da fé do antigo Israel: uma homenagem a Milton
Schwantes. São Paulo: Paulinas, 2007. p. 202.
[2]
Cf. DELLAZARI, Romano. “Deus e o Homem no Salmo 8”,
in TEOCUMUNICAÇÃO 14(1984).Porto Alegre:
Instituo de Teologia e Ciências Religiosas. Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul. p. 414.