Acolher é Evangelizar
Por:
Manoel Martins da Silva
Entre
várias lembranças que trago da minha infância, destaco uma em
especial, que é a lembrança da minha primeira “aula” de catequese
que aconteceu em uma comunidade bem simples do interior onde
passei a maior parte da minha infância. Lembro que nesse
interior as melhores roupas eram guardadas para datas especiais,
e não havia data mais especial na família do que o batizado de
uma criança, todos os parentes vinham dos interiores mais
próximos para essa grande festa familiar, os animais mais belos
eram mantidos na engorda para essa festa.
Nesta época eu tinha
uns cinco anos de idade, trago na memória até os dias atuais,
não apenas por ser uma data em que tinha as melhores comidas e
poderíamos usar as melhores roupas que eram guardadas o ano
inteiro, mas sim pela imagem de certo senhor que
ficada na porta da Capela para acolher a todos que entravam na
pequena Igrejinha, essa é uma das imagens que ficaram cravadas
no meu coração, pois ele tinha um sorriso tão doce, que não dava
vontade de sair da porta da capela, mas tínhamos que entrar para
iniciar a missa, confesso que durante a celebração não entendia
quase nada do que estava acontecendo,sabia que era algo
importante, algo de Deus pois a minha tia estava sempre
corrigindo a minha postura e mandando eu me comportar.
Para mim
Deus não se manifestava nos ritos, pois não entendia a
profundidade da celebração da santa missa, mas ele se
manifestava na imagem daquele homem de branco que ficava de
braços abertos para acolher a cada um que entrava na pequena
Igrejinha para participar da missa.
Hoje se me
perguntarem qual a imagem que eu tenho de Deus, afirmo com
confiança que é a mesma imagem daquele Senhor que ficava
esperando a todos que queriam participar daquele banquete
celeste, que acolhia com um sorriso amigo, dava um abraço e
dizia seja bem vindo (a), esse ato de acolhimento foi a primeira
catequese que eu recebi, pois aquele Padre nesse pequeno gesto
dava uma grande aula de evangelização para todos que entravam
naquela Capela.
Hoje
quando entro nas Igrejas por onde passo, sinto falta dessas
atitudes que também são manifestações do Sagrado. O acolher nas
nossas igrejas, acredito que é a porta de entrada para uma boa
celebração e é uma ótima lembrança para o retorno. Como é bom
quando nos sentimos acolhidos em um local em especial nas
Igrejas que devem nos trazer a imagem de um Deus Amor, que é
misericórdia, que acolhe e ama a todos incondicionalmente e
está de braços abertos para acolher a seus filhos amados.
Porém, hoje,
entendo que o ato de acolher o irmão não é apenas função de
religiosos, religiosas e padres, mas é uma função de todos nós e
esta função não deve ser exercida como um ato de boa educação,
mas ela vai além e deve ser exercida como um ato cristão, pois
se não temos a capacidade de acolher o irmão que é um ser
visível, será que teremos a capacidade de acolher a Deus que é
invisível aos nossos sentidos?
Contudo, cabe a cada um de
nós sermos sinal de Deus para os nossos irmãos que vem ao nosso
encontro indo também nós ao seu encontro, pois, nós batizados, devemos
ser um canal da graça de Cristo. Pois o próprio cristo é o maior
exemplo de acolhimento que podemos ter, ele acolheu não só aqueles
que se aproximam dele com um coração arrependido, mas acolhe
igualmente aqueles que vão a sua procura para feri-lo.
É o que
nos narra Mateus sobre a traição de Judas (Mt 14,44-55). Jesus,
mesmo sabendo das suas intenções, abraça-o e beija-o em um último
sinal de esperança. Sendo assim, somos convidados a acolher aos
nossos irmãos e irmãs mesmo quando para praticar tal atitude
temos que ir contra as leis do mundo ( olho por olho,dente por
dente), e sermos verdadeiros cristãos, utilizarmos a “lei”
de cristo, fazer ao próximo o que gostaríamos que ele nos
fizesse. Pois estamos mais próximo de Deus quando estamos
próximos dos nossos irmãos, mesmo quando este irmão se torna um
desafio e me convida a superar a mim mesmo, a ser mais paciente
a lançar um olhar de esperança e ultrapassar as camadas
superficiais dos defeitos e enxergar o seu mais precioso tesouro
que é a sua alma a sua essência. Assim aquele que antes era um
motivo de queda se torna canal da graça de Deus para a nossa
própria edificação.